fábula

A árvore e o pássaro

         Uma árvore reclamou do sol. Suas folhas queimavam, seus galhos ressecavam, sua casca endurecia. Já não tinha mais paciência pra essa rotina de sol, sol, sol e de vez quando chuva. Ah, mas quando chovia, o alívio era orgasmicamente refrescante. As folhas se esticavam seguras, os galhos se entregavam aos ventos sem medo de se quebrarem, podia sentir no caule a suavidade da noite.
         A árvore se sentiu sacrificada pela natureza e disse que só queria chuva. Ela fazia sombra para os animais e não havia quem lhe fizesse.
         Um pássaro explicou:
         - Dona Árvore, o sol evapora a água, que se forma em nuvens e cai como chuva. Sem sol não há chuva.
         - Não?
         - Nem vida. O sol e a chuva produzem o calor e a umidade cuja combinação faz surgir e multiplicar a vida.
         Mesmo depois destas explicações, no entanto, a árvore ainda não se sentiu satisfeita:
         - Os animais também precisam da chuva, mas não sofrem a queima do sol. Por que só eu pago a conta?
         O pássaro respondeu:
         - Sofrer a força do sol não é um preço, é um privilégio. Você sofre porque pode sofrer e isso a faz mais resistente. Quantas gerações de quantas espécies de animais você já viu nascer e morrer?
         A árvore compreendeu então a explicação do pássaro e naturalmente o sol deixou de lhe ser tão incômodo. Melhor: árvore e sol tornaram-se amigos.

MORAL DA HISTÓRIA: Quem na juventude só faz o que quer, passa o resto da vida fazendo o que não quer; mas quem na infância e na adolescência faz o que não quer tem o resto da vida pra fazer o que quer. Primeiro o sol, depois a chuva.