Antologia Poética

Vinícius de Moraes

O OLHAR PARA TRÁS
 
Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor
Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...
Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade
Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.
 
Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua
Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...
Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto
Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.
 
Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à minha
Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra
Talvez… mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando
E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.
 
Alguém gritaria longe: – "Quantas rosas nos deu a primavera!..."
Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando
Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o voo rápido de um pássaro
Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos luminosos.
 
Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada
Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! – a sua voz é fresca como o orvalho...
Beijam-me a face – irmã vestida de azul, por que estás triste?
Deu-te a vida a velar um passado também?
 
Voltaria o silêncio – seria uma quietude de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa – Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?
 
E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...
 
No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.
 
E que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.
 
Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida
Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...
Eu diria – Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo
Por que chegaste a mim cheio de chagas?
 
Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios
De branco ventre e de brancas pernas acordadas
Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...
Eu te diria – Por que vieste te dar ao já vendido?
 
Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente
Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres
Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo
Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!
 
Fora, um riso de criança – longínqua infância da hóstia consagrada
Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!
Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas
E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.
 
Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera
O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo
Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria
O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras.
 
Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...
Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...
Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste
A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...
 
E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando
Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança
Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus
Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus...

Rio de Janeiro, 1935.
 
1. Nas duas últimas estrofes, podemos entender que o eu lírico lamenta a ausência da mãe e nos revela que ela está mais evidente em sua MEMÓRIA
a) visual;
b) auditiva;
c) olfativa;
d) tátil;
e) gustativa.


 
 
A UMA MULHER
 
Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.
 
2. Assinale a alternativa INCORRETA a respeito do poema “A uma mulher”, de Vinícius de Moraes.
a) O eu lírico beija a “mulher” com a esperança de trazê-la de volta à vida, quando não havia sofrimento.
b) O único instante em que a “mulher” personifica a serenidade é aquele em que ela já está morta, mas o eu lírico ainda não sabe de sua morte.
c) A palavra regresso, usada no poema, pode ser uma alusão à frase bíblica “Tu és pó e ao pó voltarás”.
d) Segundo o eu poético, a “mulher” não teve uma vida de paz e alegria.
e) O sujeito lírico demonstra humildade quando conclui que a “mulher” merecia mais do que morrer antes dele e com ele.



 
ILHA DO GOVERNADOR
 
Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a "Berceuse"?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?
 
Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Susana - ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.
Um dia mandei: "Susana, esquece-me, não sou digno de ti - sempre teu…"
Depois, eu e Eli fomos andando… - ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
 
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos - eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.
Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…
 
Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?
 
3. A angústia referenciada no poema acima resulta da:
a) saudade de Susana e Eli.
b) dor de ter esquecido os pescadores.
c) passagem inexorável do tempo.
d) perda dos amigos.
e) perda dos amigos pobres.
 


 
AUSÊNCIA
 
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
 
4. A opção de não matar o desejo; o fato de preferir o desejo à satisfação do desejo nos remete a um fenômeno psicológico comum no Trovadorismo, quando alguns trovadores cantavam seu sofrimento de amor sem nunca manifestar o desejo de possuir a amada. Essa opção de não satisfazer o desejo para não matá-lo é comum nas
a) cantigas de amor.
b) cantigas de amigo.
c) cantigas satíricas.
d) cantigas de escárnio.
e) cantigas de maldizer.
 
5. Considerando o poema “Ausência”, de Vinícius de Moraes, assinale a alternativa INCORRETA.
a) a palavra “carne” aparece como um signo de pecado.
b) o adjunto adverbial “nesta terra amaldiçoada” compõe-se como uma antítese ao Paraíso.
c) o vocábulo “passado” surge como o peso de todos os pecados cometidos pelo eu lírico.
d) o termo “luz” nos apresenta a ideia de uma mulher atraente, sedutora, que nos levaria ao pecado.
e) o termo “desordenado” sugere uma atitude infantil, inexperiente, ingênua, inocente, atabalhoada.
 


 
O INCRIADO
 
Distantes estão os caminhos que vão para o tempo - outro luar eu vi passar na altura
Nas plagas verdes as mesmas lamentações escuto como vindas da eterna espera
O vento ríspido agita sombras de araucárias em corpos nus unidos se amando
E no meu ser todas as agitações se anulam como vozes dos campos moribundos.
 
Oh, de que serve ao amante o amor que não germinará na terra infecunda
De que serve ao poeta desabrochar sobre o pântano e cantar prisioneiro?
Não há a fazer pois que estão brotando crianças trágicas como cactos
Da semente má que a carne enlouquecida deixou nas matas silenciosas.
 
Nem plácidas visões restam aos olhos - só o passado surge se a dor surge
E o passado é como o último morto que é preciso esquecer para Ter vida
Todas as meias-noites soam e o leito está deserto do corpo estendido
Nas ruas noturnas a alma passeia, desolada e só, em busca de Deus.
 
Eu sou como o velho barco que guarda no seu bojo o eterno ruído do mar batendo
No entanto, como está longe o mar e como é dura a terra sob mim...
Felizes são os pássaros que chegam mais cedo que eu à suprema franqueza
E que, voando, caem, pequenos e abençoados, nos parques onde a primavera é eterna.
 
Na memória cruel vinte anos seguem a vinte anos na única paisagem humana
Longe do homem os desertos continuam impassíveis diante da morte
Os trigais caminham para o lavrador e o suor para a terra
E dos velhos frutos caídos surgem árvores estranhamente calmas.
 
Ai, muito andei e em vão... rios enganosos conduziram meu corpo a todas as idades
Na terra primeira ninguém conhecia o Senhor das bem-aventuranças...
Quando meu corpo precisou repousar, eu repousei, quando minha boca ficou sedenta, eu bebi
Quando meu ser pediu a carne, eu dei-lhe a carne mas eu me senti mendigo.
 
Longe está o espaço onde existem os grandes voos e onde a música vibra solta
A cidade deserta é o espaço onde o poeta sonha os grandes voos solitários
Mas quando o desespero vem e o poeta se sente morto para a noite
As entranhas das mulheres afogam o poeta e o entregam dormindo à madrugada.
 
Terrível é a dor que lança o poeta prisioneiro à suprema miséria
Terrível é o sono atormentado do homem que suou sacrilegamente a carne
Mas boa é a companhia errante que traz o esquecimento de um minuto
Boa é a esquecida que dá o lábio morto ao beijo desesperado.
 
Onde os cantos longínquos do oceano?... Sobre a espessura verde eu me debruço e busco o infinito
Ao léu das ondas há cabeleiras abertas como flores – São jovens que o terno amor surpreendeu
Nos bosques procuro a seiva úmida mas os troncos estão morrendo
No chão vejo magros corpos enlaçados de onde a poesia fugiu como o perfume da flor morta.
 
Muito forte sou para odiar nada senão a vida
Muito fraco sou para amar nada mais do que a vida
A gratuidade está no meu coração e a nostalgia dos dias me aniquila
Porque eu nada serei como ódio e como amor se eu nada conto e nada valho.
 
Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu nada sou.
 
De nada vale ao homem a pura compreensão de todas as coisas
Se ele tem algemas que o impedem de levantar os braços para o alto
De nada valem ao homem os bons sentimentos se ele descansa nos sentimentos maus
No teu puríssimo regaço eu nunca estarei, Senhora...
 
Choram as árvores na espantosa noite, curvadas sobre mim, me olhando...
Eu caminhando... sobre meu corpo as árvores passando
Quem morreu se eu estou vivo, por que choram as árvores?
Dentro de mim tudo está imóvel, mas eu estou vivo, eu sei que estou vivo porque sofro.
 
Se alguém não devia sofrer eu não devia, mas sofro e é tudo o mesmo
Eu tenho o desvelo e a bênção, mas sofro como um desesperado e nada posso
Sofro a pureza impossível, sofro o amor pequenino dos olhos e das mãos
Sofro porque a náusea dos seios gastos está amargurando a minha boca.
 
Não quero a esposa que eu violaria nem o filho que ergueria a mão sobre o meu rosto
Nada quero porque eu deixo traços de lágrimas por onde passo
Quisera apenas que todos me desprezassem pela minha fraqueza
Mas, pelo amor de Deus, não me deixeis nunca sozinho!
 
Ás vezes por um segundo a alma acorda para um grande êxtase sereno
Num sopro da suspensão e beleza passa e beija a fronte do homem parado
E então o poeta s urge e do seu peito se ouve uma voz maravilhosa
Que palpita no ar fremente e envolve todos os gritos num só grito.
 
Mas depois, quando o poeta foge e o homem volta como de um sonho
E sente sobre a sua boca um riso que ele desconhece
A cólera penetra em seu coração e ele renega a poesia
Que veio trazer de volta o princípio de todo o caminho percorrido.
 
Todos os momentos estão passando e todos os momentos estão sendo vividos
A essência das rosas invade o peito do homem e ele se apazigua no perfume
Mas se um pinheiro uiva no vento o coração do homem cerra-se de inquietude
No entanto, ele dormirá ao lado dos pinheiros uivando e das rosas recendendo.
 
Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memória
Eu sou como o velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo
No meu ser todas as agitações se anulam - nada permanece para a vida
Só eu permaneço parado dentro do tempo passando, passando, passando...
 
6. A Idade Média deixou-nos atormentados entre o desejo e o medo. Esse dualismo, evidente no poema “O Incriado”, de Vinícius de Moraes, manifesta-se fortemente no período:
a) renascentista.
b) barroco.
c) árcade.
d) romântico.
e) realista.
 
7. O homem, que se sentiu invulnerável e poderoso na Civilização Grega e no Império Romano, sentiu-se frágil e impotente na Idade Média e no período Barroco. Qual dos versos abaixo NÃO reflete esse sentimento de nulidade do ser humano em relação a si mesmo?
a) E no meu ser todas as agitações se anulam como vozes dos campos moribundos.
b) quando minha boca ficou sedenta, eu bebi
c) Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
d) Eu sou como o velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo
e) Só eu permaneço parado dentro do tempo passando, passando, passando...
 
8. No verso “Os trigais caminham para o lavrador e o suor para a terra”, encontramos as figuras de linguagem denominadas:
a) personificação e zeugma.
b) prosopopeia e metonímia.
c) antítese e paradoxo.
d) aliteração e coliteração.
e) anáfora e elipse.
 


 
A VOLTA DA MULHER MORENA
 
Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!
 
9. Nos versos 15, 16, 18 e 19, temos as figuras de linguagem:
a) anáfora e metáfora.
b) assonância e comparação.
c) anáfora e comparação.
d) aliteração e metáfora.
e) aliteração e coliteração.
 
10. Nos versos 21 e 22, podemos verificar a presença de:
a) anáfora (figura de linguagem) e modo imperativo (negativo, segunda pessoa do singular).
b) assonância (figura de linguagem) e modo subjuntivo (segunda pessoa do singular).
c) aliteração (figura de linguagem) e modo subjuntivo (segunda pessoa do plural).
d) anáfora (figura de linguagem) e modo imperativo (afirmativo, segunda pessoa do singular).
e) assonância (figura de linguagem) e modo imperativo (afirmativo, segunda pessoa do plural).
 
11. Os sintagmas “Meus amigos, meus irmãos...”, usados nos versos 1, 4, 7 e 25 podem ser classificados como:
a) vocativos ou apóstrofos.
b) anacolutos ou apóstrofos.
c) vocativos ou apóstrofes.
d) anacolutos ou perífrases.
e) vocativos ou perífrases.
 
12. No poema “A volta da mulher morena”, verifica-se uma postura fundamental da Igreja Católica.
a) Nascemos impuros e devemos nos tornar semelhantes a Deus contra o mal que vem de fora.
b) O mal nasce dentro de nós e por isso devemos afastar de nós as pessoas a quem queremos bem.
c) Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, assim estamos livres do mal.
d) O mal nasce dentro de nós e por isso devemos arrancar o próprio olho se este for a causa.
e) Nascemos puros, à imagem e semelhança de Deus, e devemos evitar o mal que vem de fora.
 
13. Assinale a alternativa INCORRETA.
a) o eu lírico dirige-se a vários interlocutores.
b) o sujeito poético sente-se incapaz de se livrar da “mulher morena”, por isso implora que a matem.
c) o eu poético vê-se atormentado pela “mulher morena”, sedutora e tentadora ao pecado.
d) o sujeito lírico suplica a morte da “mulher morena” a interlocutores próximos e distantes, demonstrando seu desespero.
e) o eu poemático pede “morte cruel à mulher morena” distanciando-se da temática metafísica que predomina em todo o poema.
 


 
A MULHER NA NOITE
 
Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste.
A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas – vinhas andando e eu não te via
Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos.
Eu estava imóvel – tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido
E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos
E as formigas me passeavam pelo corpo úmido.
Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito
E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas.
E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos
E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus lábios.
Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto
E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas.
Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser
As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero
E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia.
Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço
E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas.
 
Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe
E não havia mais vida na minha frente.
 
14. Indique a alternativa INCORRETA.
a) revela o paganismo do poeta.
b) uma descrição onírica.
c) caracteriza o psicologismo modernista.
d) sexo e serpente referem-se ao pecado no Paraíso.
e) pode ser a descrição de um pesadelo.
 


 
AGONIA
 
No teu grande corpo branco depois eu fiquei.
Tinha os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti - eras como um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem calma
Que me havias dado tanto tempo
Mas tudo era estéril e monstruoso e sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.
 
Depois foi o sono, o escuro, a morte.
 
Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente
Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.
 
15. Que figura de linguagem o poeta usa no sétimo verso para descrever e enfatizar o estado de espírito do eu lírico provocado pelo interlocutor?
a) metáfora;
b) comparação;
c) hipálage;
d) zeugma;
e) polissíndeto.
 
16. Neste poema, percebe-se a influência e a presença do:
a) onirismo simbolista;
b) ateísmo realista;
c) rigor parnasiano;
d) bucolismo árcade;
e) determinismo naturalista.


 
 
A LEGIÃO DOS ÚRIAS
 
Quando a meia-noite surge nas estradas vertiginosas das montanhas
Uns após outros, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Passam olhos brilhantes de rostos invisíveis na noite
Que fixam o vento gelado sem estremecimento.
 
São os prisioneiros da Lua. Às vezes, se a tempestade
Apaga no céu a languidez imóvel da grande princesa
Dizem os camponeses ouvir os uivos tétricos e distantes
Dos Cavaleiros Úrias que pingam sangue das partes amaldiçoadas.
 
São os escravos da Lua. Vieram também de ventres brancos e puros
Tiveram também olhos azuis e cachos louros sobre a fronte...
Mas um dia a grande princesa os fez enlouquecidos, e eles foram escurecendo
Em muitos ventres que eram também brancos mas que eram impuros.
 
E desde então nas noites claras eles aparecem
Sobre cavalos lívidos que conhecem todos os caminhos
E vão pelas fazendas arrancando o sexo das meninas e das mães sozinhas
E das éguas e das vacas que dormem afastadas dos machos fortes.
 
Aos olhos das velhas paralíticas murchadas que esperam a morte noturna
Eles descobrem solenemente as netas e as filhas deliquescentes
E com garras fortes arrancam do último pano os nervos flácidos e abertos
Que em suas unhas agudas vivem ainda longas palpitações de sangue.
 
Depois amontoam a presa sangrenta sob a luz pálida da deusa
E acendem fogueiras brancas de onde se erguem chamas desconhecidas e fumos
Que vão ferir as narinas trêmulas dos adolescentes adormecidos
Que acordam inquietos nas cidades sentindo náuseas e convulsões mornas.
 
E então, após colherem as vibrações de leitos fremindo distantes
E os rinchos de animais seminando no solo endurecido
Eles erguem cantos à grande princesa crispada no alto
E voltam silenciosos para as regiões selvagens onde vagam.
 
Volta a Legião dos Úrias pelos caminhos enluarados
Uns após outros, somente os olhos, negros sobre cavalos lívidos
Deles foge o abutre que conhece todas as carniças
E a hiena que já provou de todos os cadáveres.
 
São eles que deixam dentro do espaço emocionado
O estranho fluido todo feito de plácidas lembranças
Que traz às donzelas imagens suaves de outras donzelas.
E traz aos meninos figuras formosas de outros meninos.

São eles que fazem penetrar nos lares adormecidos
Onde o novilúnio tomba como um olhar desatinado
O incenso perturbador das rubras vísceras queimadas
Que traz à irmã o corpo mais forte da outra irmã.
 
São eles que abrem os olhos inexperientes e inquietos
Das crianças apenas lançadas no regaço do mundo
Para o sangue misterioso esquecido em panos amontoados
Onde ainda brilha o rubro olhar implacável da grande princesa.
 
Não há anátema para a Legião dos Cavaleiros Úrias
Passa o inevitável onde passam os Cavaleiros Úrias
Por que a fatalidade dos Cavaleiros Úrias?
Por que, por que os Cavaleiros Úrias?
 
Oh, se a tempestade boiasse eternamente no céu trágico
Oh, se fossem apagados os raios da louca estéril
Oh, se o sangue pingado do desespero dos Cavaleiros Úrias
Afogasse toda a região amaldiçoada!
 
Seria talvez belo – seria apenas o sofrimento do amor puro
Seria o pranto correndo dos olhos de todos os jovens
Mas a Legião dos Úrias está espiando a altura imóvel
Fechai as portas, fechai as janelas, fechai-vos meninas!
 
Eles virão, uns após outros, os olhos brilhando no escuro
Fixando a lua gelada sem estremecimento
Chegarão os Úrias, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Quando a meia-noite surgir nas estradas vertiginosas das montanhas.
 
Anátema: excomunhão.
Deliquescente: que se desfaz em líquido; úmido.
Novilúnio: período em que a Lua é nova.
 
17. Aponte a alternativa incorreta, considerando o poema “A Legião dos Ùrias”.
a) A lua é a grande princesa que liberta e abençoa os cavaleiros Úrias.
b) São comuns imagens de aflição e temor, imagens apocalípticas de um espaço surreal.
c) Nesse mundo alógico e amedrontador, o feminino associa-se à ideia do pecado.
d) O sangue feminino encontra valorização sexual-pecaminosa, simbolizando um tempo moralizado pela punição.
e) A Lua constitui o símbolo encontrado pelo poeta para evidenciar a fatalidade que o arrasta ao seu destino.
 
18. Na antepenúltima estrofe, “louca estéril” é uma perífrase que se refere à:
a) vida.
b) morte.
c) noite.
d) Lua.
e) legião.
 


 
ALBA
 
Alba, no canteiro dos lírios estão caídas as pétalas de uma rosa cor de sangue
Que tristeza esta vida, minha amiga…
Lembras-te quando vínhamos na tarde roxa e eles jaziam puros
E houve um grande amor no nosso coração pela morte distante?
Ontem, Alba, sofri porque vi subitamente a nódoa rubra entre a carne pálida ferida
Eu vinha passando tão calmo, Alba, tão longe da angústia, tão suavizado
Quando a visão daquela flor gloriosa matando a serenidade dos lírios entrou em mim
E eu senti correr em meu corpo palpitações desordenadas de luxúria.
Eu sofri, minha amiga, porque aquela rosa me trouxe a lembrança do teu sexo que eu não via
Sob a lívida pureza da tua pele aveludada e calma
Eu sofri porque de repente senti o vento e vi que estava nu e ardente
E porque era teu corpo dormindo que existia diante de meus olhos.
Como poderias me perdoar, minha amiga, se soubesses que me aproximei da flor como um perdido
E a tive desfolhada entre minhas mãos nervosas e senti escorrer de mim o sêmen da minha volúpia?
Ela está lá, Alba, sobre o canteiro dos lírios, desfeita e cor de sangue
Que destino nas coisas, minha amiga!
Lembras-te, quando eram só os lírios altos e puros?
Hoje eles continuam misteriosamente vivendo, altos e trêmulos
Mas a pureza fugiu dos lírios como o último suspiro dos moribundos
Ficaram apenas as pétalas da rosa, vivas e rubras como a tua lembrança
Ficou o vento que soprou nas minhas faces e a terra que eu segurei nas minhas mãos.
 
19. Assinale a alternativa INCORRETA.
a) Os lírios brancos tornavam a tarde antiteticamente roxa, evidenciando o branco puro dos lírios.
b) O eu poético possuiu sexualmente Alba em pensamento motivado pelo vermelho de uma rosa que desfez a hegemonia do branco puro dos lírios.
c) As palpitações desordenadas de luxúria se referem a um repentino e forte desejo de riqueza e poder do eu poético.
d) O eu lírico associa o branco puro dos lírios à pele branca e pura de Alba.
e) Para o eu poético, o branco dos lírios perdeu a inocência depois de possuir sexualmente Alba em seus pensamentos.


 
 
TRÊS RESPOSTAS EM FACE DE DEUS
 
Sim, vós sois... (eu deveria ajoelhar dizendo os vossos nomes!)
E sem vós quem se mataria no presságio de alguma madrugada?
À vossa mesa irei murchando para que o vosso vinho vá bebendo
De minha poesia farei música para que não mais vos firam os seus acentos dolorosos
Livres as mãos e serei Tântalo – mas o suplício da sede vós o vereis apenas nos meus olhos
Que adormeceram nas visões das auroras geladas onde o sol de sangue não caminha…

E vós!... (Oh, o fervor de dizer os vossos nomes angustiados!)
Deixai correr o vosso sangue eterno sobre as minhas lágrimas de ouro!
Vós sois o espírito, a alma, a inteligência das coisas criadas
E a vós eu não rirei – rir é atormentar a tragédia interior que ama o silêncio
Convosco e contra vós eu vagarei em todos os desertos
E a mesma águia se alimentará das nossas entranhas tormentosas.

E vós, serenos anjos... (eu deveria morrer dizendo os vossos nomes!)
Vós cujos pequenos seios se iluminavam misteriosamente à minha presença silenciosa!
Vossa lembrança é como a vida que não abandona o espírito no sono
Vós fostes para mim o grande encontro…
E vós também, ó árvores de desejo! Vós, a jetatura de Deus enlouquecido
Vós sereis o demônio em todas as idades.
 
jetatura: azar; bruxaria.
 
20. O verso “E a vós eu não rirei – rir é atormentar a tragédia interior que ama o silêncio” relaciona-se historicamente com as afirmações abaixo, EXCETO:
a) Na Alta Idade Média, rir era um desrespeito ofensivamente grave a Deus.
b) No século 21, médicos receitam doses diárias de riso contra o estresse cotidiano.
c) “Mona Lisa”, de Leonardo Da Vinci, chamou a atenção de todos que a observaram também porque ousava relaxar e (quase) sorrir numa época em que a Igreja ainda detinha muito poder.
d) A figura do “bobo da corte” nasceu da necessidade de rir depois da Alta Idade Média.
e) Gil Vicente fez o sucesso popular pelo qual ansiava porque sabia fazer rir.


 
 
O FALSO MENDIGO
 
Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a "Patética" no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Nenem, pede a ela uma ideia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar.
Estou com taquicardia, me da um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Saber ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.
 
21. Assinale a alternativa INCORRETA a respeito do poema “O falso mendigo”, de Vinícius de Moraes.
a) O sujeito poético demonstra ter aversão à rotina.
b) Trata-se de um “falso mendigo” porque pede muito, mas tem um bom emprego.
c) Para o eu lírico, fazer poesia é um modo de fugir de uma realidade indesejável.
d) Eu poético e poeta se confundem, pois Vinícius de Moraes trabalhou como censor para o Departamento Federal de Censura.
e) O verso “Tenho um tédio enorme da vida” pode ser tomado como o refrão do poema.


 
 
SONETO DE INTIMIDADE
 
Nas tardes da fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
 
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais
 
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
 
Seguido de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
 
22. Considerando o Modernismo Árcade da Terceira Geração Modernista, que características neoclássicas podemos verificar no Soneto de Intimidade?
a) forma fixa, regularidade métrica, versos brancos, locus amoenus.
b) forma irregular, versos livres, esquema de rimas, locus amoenus.
c) forma fixa, versos livres, regularidade rímica, fugere urbem.
d) forma original, regularidade métrica, esquema de rimas, fugere urbem.
e) forma fixa, regularidade métrica, esquema de rimas, locus amoenus.


 
 
ÁRIA PARA ASSOVIO
 
Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio
 
As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?
 
O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve
 
(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme)
 
23. Nos versos “A música do perfume / Não guarda ciúme” temos que figuras de linguagem?
a) sinestesia e prosopopeia.
b) personificação e onomatopeia.
c) sinestesia e onomatopeia.
d) catacrese e personificação.
e) metonímia e prosopopeia.
 
24. Identifique o interlocutor do eu lírico no poema “Ária para assovio”.
a) A ária.
b) A rosa.
c) O assovio.
d) A melancolia.
e) O próprio poema.
 
25. O quarto verso refere-se a que seio?
a) da tarde.
b) da mulher amada.
c) da rosa.
d) do dia.
e) das cássias.


 
 
SONETO À LUA
 
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, que és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
 
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
 
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
 
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
 
26. O primeiro verso do “Soneto à Lua” é
a) redondilho maior.
b) heptassílabo.
c) decassílabo heroico.
d) rendodilho menor.
e) decassílabo sáfico.
 
27. Considerando os dois últimos versos da primeira estrofe, segundo o eu lírico,
a) a Lua está nele, um homem impuro, pura como o bem que está nos homens puros.
b) a Lua, impura, está nele como o bem que está nos homens puros.
c) a Lua está nele, um homem puro, impura como o bem que está nos homens puros.
d) a Lua, impura, está nele, um homem impuro, como o bem que está nos homens puros.
e) a Lua está nele, impura, como o bem que está nos homens impuros.
 
28. Assinale a alternativa CORRETA.
a) Mulheres, como Tatiana e Teresa, têm menos valor que a Lua para o eu lírico.
b) A Lua se apresenta para o eu lírico com uma importância incompreensível.
c) Para o eu lírico, a Lua se apresenta apenas com uma face infantil e inocente.
d) O eu lírico compara a Lua a uma mulher vagabunda, patética e indefesa.
e) Há rimas ricas nos versos A do esquema de rimas ABBA.


 
 
SONETO DE AGOSTO
 
Tu me levaste eu fui... Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.
 
Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.
 
Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco
 
Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.
 
29. Na última estrofe, “o púbis negro” é objeto direto do verbo
a) julgara
b) arrancara
c) quisera
d) vissem
e) via
 
30. A figura de linguagem denominada zeugma está representada
a) no título
b) na primeira estrofe
c) na segunda estrofe
d) na terceira estrofe
e) na última estrofe.
 
31. Assinale a alternativa INCORRETA.
a) As palavras “vagamente” (na primeira estrofe) e “macia” (na última estrofe) caracterizam a calma do poeta em sua segunda fase.
b) A forma fixa – o soneto – localiza este poema na primeira fase – neoclássica – de Vinícius de Moraes.
c) A “túnica inconsútil” (roupa que não tem costura, não apresenta emendas, toda a túnica é uma única peça) representa o recato, o comportamento moral exemplar.
d) Na última estrofe, o eu lírico gostaria de revelar a outras pessoas seu sentimento de homem livre e poderoso.
e) A antítese negro / branco surge no último verso do poema como uma revanche contra os tormentos barrocos.


 
 
A MULHER QUE PASSA
 
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
 
Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
 
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
 
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
 
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
 
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
 
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
 
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
 
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
 
Cortiça: casca espessa, leve e porosa de árvores como o sobreiro, com que se fabricam rolhas, boias...
 
32. Adicione as alternativas CORRETAS.
1. Temos uma comparação no verso “Teus sofrimentos, melancolia”.
2. O eu lírico alterna o interlocutor entre Deus e a “mulher que passa”.
4. “Que me sacias e suplicias” é igual a “que me satisfazes e torturas”.
8. Nos versos “Por que me odeias quando te juro / Que te perdia se me encontravas / E me encontrava se te perdias?”, o eu lírico confessa que podia tê-la, mas não sabia ser dela.
16. Neste poema nota-se a ausência dos conflitos antitéticos típicos do Barroco e do Modernismo Barroco.


 
 
SONETO A KATHERINE MANSFIELD
 
O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.
 
Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.
 
Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima! ...(Nunca te apartas
 
Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
 
I – No trecho entre parênteses percebe-se a função da linguagem denominada:
a) expressiva;
b) conativa;
c) referencial;
d) metalinguística;
e) fática.
 
II – Identifique a alternativa incorreta.
a) Se o eu lírico a conquistou, o interlocutor, isso aconteceu numa primavera.
b) Mesmo sentimentalmente, não houve grande aproximação entre eu lírico e interlocutor.
c) No segundo verso, a palavra “azul” também se refere a uma primavera, a um céu de primavera.
d) O eu poético percebe a proximidade da primavera.
e) Por meio do perfume das cartas, o sujeito poético sente brevemente a presença do interlocutor.
 
33. Nas questões I e II, qual alternativa deve ser assinalada corretamente?
(a)
(b)
(c)
(d)
(e)


 
 
SONETO DE CONTRIÇÃO
 
Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.
 
Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.
 
Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...
 
E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.
 
34. Assinale a alternativa INCORRETA.
a) Na primeira estrofe, encontra-se uma antítese reveladora dos sentimentos contraditórios do sujeito poético.
b) Nos tercetos, o eu lírico defende a supremacia do amor ideal sobre o amor real.
c) No último verso do segundo quarteto, o termo “berçando”, além de estender a liberdade de criança dos dois primeiros versos a toda a estrofe, aponta para o “coração” como um criador de “versos de saudade imensa”.
d) Nos quatro primeiros versos, o eu poético confessa a imposição de sua razão sobre seu sentimento, afirmando o amor e negando a paixão.
e) Na terceira estrofe, o sujeito lírico valoriza o espírito em detrimento do corpo.


 
 
TERNURA
 
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
 
35. No quarto verso de “Ternura”, está evidente a figura de linguagem denominada
a) coliteração.
b) hipérbato.
c) sinestesia.
d) hipérbole.
e) apóstrofe.
 
36. Quem é o sujeito dos predicativos “É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias”?
a) “as misteriosas palavras”
b) “a fascinação das promessas”
c) “a doçura”
d) “o exaspero das lágrimas”
e) “o grande afeto”
 
37. Qual seria melhor interpretação para os dois primeiros versos de “Ternura”?
a) O eu lírico já a amava há muito tempo quando descobriu que a amava.
b) O sujeito lírico aceita a indiferença dela ao seu amor.
c) O eu poético pede perdão por nunca ter confessado o seu amor.
d) O sujeito poético lamenta tê-la amado quando ela já não mais o amava.
e) O eu lírico demonstra desespero por ter descoberto o seu amor tarde demais.


 
 
SONETO DE DEVOÇÃO
 
Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
 
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.
 
Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
 
Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
 
38. O início dos versos marcado pelo sujeito “essa mulher” caracteriza a figura de linguagem denominada:
a) anáfora
b) antítese
c) aliteração
d) assonância
e) antonomásia
 
39. A palavra “fria”, no fim do primeiro verso, pode ser substituída, conservando o mesmo sentido, por:
a) sem desejo
b) indecisa
c) sem culpa
d) indiferente
e) tímida

40. Qual das alternativas não caracteriza adequadamente “essa mulher”?
a) não idealiza o amor
b) não faz de si um personagem
c) não esconde sua animalidade
d) não se deixa levar pelos instintos
e) não tem vergonha de qualquer atitude inspirada pelo amor.


 
 
SONETO DE FIDELIDADE
 
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
 
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
 
41. Na primeira oração do terceiro verso da segunda estrofe temos:
a) objeto indireto
b) objeto direto cognato
c) objeto direto pleonástico
d) objeto direto preposicionado
e) objeto indireto pleonástico.
 
42. Qual das afirmações não se encontra no poema?
a) Serei tão atento ao meu amor que eu espero que meu pensamento mais se encante dele mesmo diante do maior encanto.
b) Quero viver o meu amor em todos os momentos com a mesma intensidade.
c) A morte é a angústia de quem vive.
d) A solidão é o fim de quem ama.
e) Eu quero acreditar na eternidade do meu amor enquanto durar.
 
43. Que característica romântica mais se impõe no poema?
a) sentimentalismo desenfreado
b) valorização do passado
c) idealização do amor
d) linguagem coloquial
e) espírito revolucionário
 


 
PAISAGEM
 
Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.
 
Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.
 
Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
 
44. Que outro título, das possibilidades abaixo, poderia substituir coerentemente “Paisagem”?
a) Aversão à morte.
b) Preso ao passado.
c) A oeste do sol.
d) A morte é vermelha.
e) A vida me acordou da morte.


 
 
MENSAGEM À POESIA
 
Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
 
45. No trecho, o poeta expõe alguns dos motivos que o impedem de ir ao encontro da poesia. A partir da observação desses motivos, procure deduzir a concepção dessa poesia ao encontro da qual o poeta não pode ir. Como se define essa poesia?
 
46. Na “Advertência” que abre sua “Antologia Poética”, Vinícius de Moraes declarou haver “dois períodos distintos”, ou duas fases, em sua obra. Considerando as características dominantes no poema “Mensagem à poesia”, esse poema pertence a qual desses períodos? Justifique sua resposta.
 
 
 
 
BALADA DO MORTO VIVO
 
Tatiana, hoje vou contar
O caso do Inglês espírito
Ou melhor: do morto vivo.
 
Diz que mesmo sucedeu
E a dona protagonista
Se quiser pode ser vista
No hospício mais relativo
Ao sítio onde isso se deu.
 
Diz também que é muito raro
Que por mais cético o ouvinte
Não passe uma noite em claro:
Sendo assim, por conseguinte
Se quiser diga que eu paro.
 
Se achar que é mentira minha
Olhe só para essa pele
Feito pele de galinha...
 
Dou início: foi nos faustos
Da borracha do Amazonas.
Às margens do Rio Negro
Sobre uma balsa habitável
Um dia um casal surgiu
Ela chamada Lunalva
Formosa mulher de cor
Ele por alcunha Bill
Um Inglês comercial
Agente da "Rubber Co."
 
Mas o fato é que talvez
Por ter nascido na Escócia
E ser portanto escocês
Ninguém de Bill o chamava
Com exceção de Lunalva
Mas simplesmente de Inglês.
 
Toda manhã que Deus dava
Lunalva com muito amor
Fazia um café bem quente
Depois o Inglês acordava
E o homem saía contente
Fumegando o seu cachimbo
Na sua lancha a vapor.
 
Toda a manhã que Deus dava.
 
Somente com o sol-das-almas
O Inglês à casa voltava.

Que coisa engraçada: espia
Como só de pensar nisso
Meu cabelo se arrepia...
 
Um dia o Inglês não voltou.
 
A janta posta, Lunalva
Até o cerne da noite
Em pé na porta esperou.
 
Uma eu lhe digo, Tatiana:
A lua tinha enloucado
Nesse dia da semana...
Era uma lua tão alva
Era uma lua tão fria
Que até mais frio fazia
No coração de Lunalva.
 
No rio negroluzente
As árvores balouçantes
Pareciam que falavam
Com seus ramos tateantes
Tatiana, do incidente.
 
Um constante balbucio
Como o de alguém muito em mágoa
Parecia vir do rio.
Lunalva, num desvario
Não tirava os olhos da água.
 
Às vezes, dos igapós
Subia o berro animal
De algum jacaré feroz
Praticando o amor carnal
Depois caía o silêncio...
 
E então voltava o cochicho
Da floresta, entrecortado
Pelo rir mal-assombrado
De algum mocho excomungado
Ou pelo uivo de algum bicho.
 
Na porta em luzcancarada
Só Lunalva lunalvada.
 
Súbito, ó Deus justiceiro!
Que é esse estranho ruído?
Que é esse escuro rumor?
Será um sapo-ferreiro
Ou é o moço meu marido
Na sua lancha a vapor?
 
Na treva sonda Lunalva...
Graças, meu Pai! Graças mil!
Aquele vulto... era o Bill
A lancha... era a Arimedalva!
 
"Ah, meu senhor, que desejo
De rever-te em casa em paz...
Que frio que está teu beijo!
Que pálido, amor, que estás!"
 
Efetivamente o Bill
Talvez devido à friagem
Que crepitava do rio
Voltara dessa viagem
Muito branco e muito frio.
 
"Tenho nada, minha nega
Senão fome e amor ardente
Dá-me um trago de aguardente
Traz o pão, passa manteiga!
E aproveitando do ensejo
Me apaga esse lampião
Estou morrendo de desejo
Amemos na escuridão!"
 
Embora estranhando um pouco
A atitude do marido
Lunalva tira o vestido
Semilouca de paixão.
 
Tatiana, naquele instante
Deitada naquela cama
Lunalva se surpreendeu
Não foi mulher, foi amante
Agiu que nem mulher-dama
Tudo o que tinha lhe deu.
 
No outro dia, manhãzinha
Acordando estremunhada
Lunalva soltou risada
Ao ver que não estava o Bill.
 
Muito Lunalva se riu
Vendo a mesa por tirar.
 
Indo se mirar ao espelho
Lunalva mal pôde andar
De fraqueza no joelho.
E que olhos pisados tinha!
 
Não rias, pobre Lunalva
Não rias, morena flor
Que a tua agora alegria
Traz a semente do horror!
 
Eis senão quando, no rio
Um barulho de motor.
 
À porta Lunalva voa
A tempo de ver chegando
Um bando de montarias
E uns cabras dentro remando
Tudo isso acompanhando
A lancha a vapor do Bill
Com um corpo estirado à proa.
 
Tatiana, põe só a mão:
Escuta como dispara
De medo o meu coração.
 
Em frente da balsa para
A lancha com o corpo em cima
Os caboclos se descobrem
Lunalva que se aproxima
Levanta o pano, olha a cara
E dá um medonho grito.
 
"Meu Deus, o meu Bill morreu!
Por favor me diga, mestre
O que foi que aconteceu?"
 
E o mestre contou contado:
O Inglês caíra no rio
Tinha morrido afogado.
 
Quando foi?... ontem de tarde.
 
Diz – que ninguém esqueceu
A gargalhada de louca
Que a pobre Lunalva deu.
 
Isso não é nada, Tatiana:
Ao cabo de nove luas
Um filho varão nasceu.
 
O filho que ela pariu
Diz que, Tatiana, diz que era
A cara escrita do Bill:
 
A cara escrita e escarrada...
 
Diz que até hoje se escuta
O riso da louca insana
No hospício, de madrugada.
 
É o que lhe digo, Tatiana...
 
47. Na quarta estrofe do poema “Balada do morto vivo”, o eu lírico
a) tem como prova de sua história um pedaço da pele do Inglês.
b) apela para um dito popular segundo o qual as galinhas não mentem.
c) pede a Tatiana que acredite em sua história em respeito à sua idade.
d) sugere ao interlocutor que se mantenha concentrado na pele de uma galinha para perceber a verossimilhança de sua história.
e) aconselha Tatiana a não se preocupar com verdades ou mentiras.
 
48. De acordo com a nona estrofe do poema “Balada do morto vivo”, o Inglês voltava para casa
a) com o nascer do sol.
b) somente no avermelhado do sol do fim do dia.
c) quando a lua clareava o rio.
d) no meio do dia, quando o sol é mais ardente.
e) no meio da noite, quando a lua é mais clara.
 
49. Depois de ler a “Balada do morto vivo”, se alguém nos dissesse que Lunalva exercitou sua sexualidade com Bill na véspera da morte dele; que, no dia da morte do marido, Lunalva ovulou; à noite, depois de tanto esperar, adormeceu; adormecida, em sonho, entregou-se completamente ao marido; o calor do seu corpo apressou o óvulo a se encontrar com os espermatozóides que ainda se mantinham vivos em seu útero; e que nessa mesma noite fecundou. Se alguém nos dissesse isso, poderíamos identificá-lo como um
a) iconoclasta;
b) xenófobo;
c) fascista;
d) místico;
e) ingênuo.
 
50. Supondo que Lunalva, personagem protagonista da “Balada do morto vivo” tenha se entregado sexualmente ao marido, em sonho, na noite do dia em que ele morreu; que fator NÃO colaborou para que esse ato sexual ocorresse?
a) “...o berro animal / De algum jacaré feroz / Praticando o amor carnal”.
b) A ansiedade de Lunalva pela volta de Bill.
c) O desejo sexual provocado por uma possível ovulação de Lunalva.
d) A imagem do rio “negroluzente”.
e) Uma possível relação sexual de Lunalva com o Inglês na véspera da morte dele.
 
51. A palavra “negroluzente”, empregada no décimo-quarto parágrafo do poema “Balada do morto vivo”, formou-se pelo processo de:
a) aglutinação.
b) derivação.
c) redução.
d) onomatopeia.
e) justaposição.
 
52. Nos versos “Na porta em luzcancarada / Só Lunalva, lunalvada.”, do poema “Balada do morto vivo”, a palavra “lunalvada” é:
a) particípio não flexionado do verbo lunalvar.
b) gerúndio flexionado do substantivo verbalizado lunalvar.
c) um substantivo adjetivado por meio da verbalização.
d) um verbo adjetivado através da substantivação.
e) um adjetivo substantivado por meio da verbalização.


 
 
A ROSA DE HIROSHIMA
 
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
 
53. Neste poema,
a) a referência a um acontecimento histórico, ao privilegiar a objetividade, suprime o teor lírico do texto.
b) parte da força poética do texto provém da associação da imagem tradicionalmente positiva da rosa a atributos negativos, ligados à ideia de destruição.
c) o caráter politicamente engajado do texto é responsável pela sua despreocupação com a elaboração formal.
d) o paralelismo da construção sintática revela que o texto foi escrito originalmente como letra de canção popular.
e) o predomínio das metonímias sobre as metáforas responde, em boa medida, pelo caráter concreto do texto e pelo vigor de sua mensagem.
 
54. Dentre os recursos expressivos presentes no poema, podem-se apontar a sinestesia e a aliteração, respectivamente, nos versos
a) 2 e 17.
b) 1 e 5.
c) 8 e 15.
d) 9 e 18.
e) 14 e 3.
 
55. Os aspectos expressivo e exortativo do texto conjugam-se, de modo mais evidente, no verso:
a) “Mudas telepáticas”. (V. 2)
b) “Mas oh não se esqueçam”. (V. 9)
c) “Da rosa da rosa”. (V. 10)
d) “Estúpida e inválida”. (V. 14)
e) “A antirrosa atômica”. (V. 16)


 
 
A HORA ÍNTIMA
 
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
 
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
 
56. No poema "A hora íntima", Vinicius de Moraes pergunta "Quem pagará o enterro e as flores / Se eu me morrer de amores?". Nessa passagem, os versos de Vinicius retomam, num tom ameno e voltado para a temática da relação amorosa, a ideia de "se eu morresse amanhã", consagrada por
a) Gonçalves Dias - romântico nacionalista.
b) Castro Alves - romântico abolicionista.
c) Fagundes Varela - romântico idealista.
d) Álvares de Azevedo - romântico lírico.
e) José de Alencar - romântico indianista.

Instrução: As questões de números 57 a 61 tomam por base um fragmento de uma elegia de Vinicius de Moraes (1913-1980).
 
Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes,
poeta e cidadão
 
A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância...
Dizíamos: “Ê-vem meu pai!”. Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes*, ah, corríamos
Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
Mas ser marraio** em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência
Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
Se curvavam como ao peso da enorme poesia
Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e frequentemente o binóculo
Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através do teu óculo de alcance
Que nunca revelaste a ninguém?
Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no último lance da maratona.
Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde
A um gesto do mar. A noite se fechava
Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.
Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar
Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios
Buscavam ilhas, outras ilhas... — as imaculadas, inacessíveis
Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar
E trazer — depositar aos pés da amada as joias fulgurantes
Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles
Dos mais provectos***. Muitas vezes te vi, comandante
Comandar, batido de ventos, perdido na fosforência
De vastos e noturnos oceanos
Sem jamais.
Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar
Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor
Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas
Teu amor inventou. Financiaste uma lancha
Movida a água: foi reta para o fundo. Partiste um dia
Para um brasil além, garimpeiro sem medo e sem mácula.
Doze luas voltaste. Tua primogênita — diz-se —
Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.
 
            (Vinicius de Moraes. Antologia poética. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1974, p. 180-181.)
 
            (*) Semovente: “Que ou o que anda ou se move por si próprio.”
            (**) Marraio: “No gude e noutros jogos, palavra que dá, a quem primeiro a grita, o direito de ser o último a jogar.”
            (***) Provecto: “Que conhece muito um assunto ou uma ciência, experiente, versado, mestre.”
            (Dicionário Eletrônico Houaiss)
 
Compare o conteúdo das frases a seguir com o que o eu-poemático afirma no poema.
I. A notícia da morte do pai chegou por telefone.
II. O falecimento foi informado pela primogênita.
III. A morte do pai provocou reminiscências da infância.
IV. Apesar de não ter sido um bom pai, o filho perdoa e sente saudades.
 
57. (UNESP) As frases que correspondem ao que é efetivamente expresso no poema estão contidas apenas em
(A) I e II.
(B) I e III.
(C) I e IV.
(D) I, II e III.
(E) II, III e IV.
 
“O barbante cortava teus dedos / Pesados de mil embrulhos:”
 
58. (UNESP) O emprego da expressão mil embrulhos no verso mencionado caracteriza-se como figura de linguagem denominada hipérbole, porque
(A) é uma imagem exagerada, mas expressiva, do fato referido no verso.
(B) “barbante” aparece personificado, com atitudes humanas.
(C) ocorre uma comparação entre um fato real e um fato fictício.
(D) o eu-poemático tenta precisar metonimicamente o que não é preciso.
(E) há uma relação de contiguidade semântica entre “dedos” e “embrulhos”.
 
59. (UNESP) Marque a alternativa cujo verso contém um pleonasmo, ou seja, uma redundância de termos com bom efeito estilístico.
(A) De repente não tinha pai.
(B) Rangia nos trilhos a muitas praias de distância...
(C) Se curvavam como ao peso da enorme poesia
(D) Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.
(E) Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
 
“Quando a curva / Se acendia de luzes semoventes,”
 
60. (UNESP) Esta imagem significa, nos versos em que surge,
(A) o mar ao longe refletia as luzes da cidade.
(B) o bonde se aproximava todo iluminado.
(C) a lua despontava no horizonte, trêmula e brilhante.
(D) as luzes dos postes se acendiam, ao anoitecer.
(E) a curvatura do céu todo estrelado aparecia à noite.
 
“Partiste um dia / Para um brasil além, garimpeiro sem medo e sem mácula.”
 
61. (UNESP) O emprego da palavra brasil com inicial minúscula, no poema de Vinicius, tem a seguinte justificativa:
(A) O eu-poemático se serve da inicial minúscula para menosprezar o país.
(B) Empregar um nome próprio com inicial minúscula era comum entre os modernistas.
(C) O eu-poemático emprega “brasil” como metáfora de “paraíso”, onde crê estar a alma de seu pai.
(D) O emprego da inicial maiúscula em nomes de países é facultativo.
(E) Na acepção em que é empregada no texto, a palavra “brasil” é um substantivo comum.