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Centenário de Araçatuba


ALVINO BARBOSA

         



                                   O conhecimento liberta

 


        
O ideal da Educação inclui, além do esclarecimento de informações, a formação de um cidadão consciente de que já fizemos muito, entretanto temos muito mais a fazer e o melhoramento deste mundo depende da colaboração de todos. Justamente por isso as aulas do professor Alvino Barbosa – representante da comunidade afro-brasileira de Araçatuba – sempre estão além da demonstração de informações geográficas.

         O magistério pode ser uma atividade contra o preconceito racial. Não, o professor Alvino não confunde as coisas, ao contrário, colabora e muito na formação de uma cidadania necessária. Foi e sempre será um dos melhores exemplos de que os negros saíram das senzalas – na segunda metade do século dezenove – analfabetos, sem-alma, sem-pátria, sem-terra, sem-teto, sem-salário, sem profissão e cem anos mais tarde já eram excelentes profissionais, inclusive professores.

         Alvino Barbosa me lembra de negros como o poeta Cruz e Sousa que, a despeito do preconceito racial, arrancaram de si todas as possibilidades, aproveitaram todas as oportunidades, tornaram-se pessoas admiráveis, notáveis. O professor Alvino aprendeu o valor da educação com o tratamento que recebeu de sua mãe, Dona Generosa. Nunca levantou a mão para me castigar.

         No Natal de 1944, morando num cômodo de tábuas da Rua Paes Leme, acordou com a Dona Generosa chorando. Perguntou o que acontecia, mas a mãe disse que era só a fumaça do fogão. O menino Alvino sabia bem o motivo. Em casa havia meio quilo de arroz e mais nada. Nem óleo, nem sal. Pegou a caixa de engraxate e saía. Já vai, meu filho? Toma um chá pra esquentar o estômago... Dona Generosa ferveu algumas folhas de erva cidreira e serviu ao garoto. Na estação ferroviária, o menino encontrou um homem grande, enfiado em roupas brancas, com guaiaca e botas longas. O homem grande sentou-se num dos bancos da estação e chamou o engraxate para lustrar suas botas, que iam até os joelhos. Enquanto o homem grande conversava com quem estivesse por perto, o menino trabalhava. Quando terminou a limpeza das botas, o homem grande ficou satisfeito com o serviço e perguntou o preço. O menino pediu pelo pagamento de três ou quatro sapatos: um mil réis. O homem grande lhe deu cinco mil. Não tenho troco não, moço! Não preciso do troco. É presente de Natal.

         Alvino pegou o dinheiro e desapareceu. Reapareceu na mercearia do japonês. Comprou óleo, sal, farinha, linguiça e mais outro tanto de coisas que tinha vontade de comer e levou para casa. Dona Generosa, a princípio, não ficou feliz. Quis saber onde e como seu menino tinha arrumado o dinheiro. Do homem grande, na estação. Então é disso que eu vou saber. Dona Generosa só ficou feliz e agradecida quando soube de testemunhas que o seu menino tinha conseguido o dinheiro trabalhando. A mãe pôs para o seu filho a preservação do bom caráter antes da preservação da própria vida. Educação é fundamental.

Estação Sala de Aula - Passageiros de Araçatuba - Editora Folha da Região - 2009.

Microbiografia de Alvino Barbosa
 

         O Prof. Alvino Barbosa nasceu em Garça, em 1935, perdeu o pai aos cinco anos, veio de Lavínia para Araçatuba com a mãe e irmãos em 1943. Em 1945, trabalhava como engraxate quando começou a estudar à noite na Escola Campos Sales. No início dos anos 60 fez o curso para se tornar Professor Normalista e em 1963 começou a lecionar. Em 1965 matriculou-se na Faculdade de Geografia da Instituição Toledo. Formou-se ainda em Estudos Sociais, Pedagogia e Direito. Trabalhou 27 anos na Rede Estadual de Ensino + 36 anos no Ensino Superior + 42 anos no ensino médio da rede particular.




 

CÉLIO PINHEIRO




Um homem absorvido pelas letras

 


        
Escrevemos porque engendramos algumas ideias e seria vaidade de menos ou egoísmo demais guardá-las como se nunca tivessem existido. Outros escrevem porque são profissionais. Vivem de noticiar, contar histórias, vasculhar temas. O melhor é que o ser humano desenvolveu a capacidade de escrever e nisto está uma evolução inestimável.

         Antes de pôr no papel ou na tela uma frase, o cérebro a elabora minuciosamente. Usa toda a sua experiência de milhões de anos para expressar um pensamento. Mas, infelizmente, ninguém é perfeito. Ninguém consegue ideias irretocáveis e bem menos expressá-las incorrigivelmente.

         Talvez o principal objetivo da Literatura seja num dia ¨C ou numa noite ¨C construir um texto tão eficaz que não apareça. Como se a característica, o fato ou o conceito fosse de um cérebro a outro sem ter de ser lido.

         Escrevemos as nossas convicções, aliás, evoluímos no aperfeiçoamento das nossas certezas.

         Desde Machado de Assis, alguns brasileiros criaram e mantêm academias de letras com o intuito de desenvolver a capacidade humana de comunicar suas criações e conclusões.

         Em Araçatuba, 1991, o professor de Literatura Portuguesa, Célio Pinheiro, titular do curso de Letras da então Faculdade de Ciências e Letras de Araçatuba, convidou alguns escritores ¨C com pelo menos um livro publicado ¨C para fundar a Academia Araçatubense de Letras.

         No ano seguinte, o professor e escritor Célio Pinheiro, um dos bons leitores de João Guimarães Rosa, conseguiu reunir quinze escritores araçatubenses dispostos a reuniões periódicas em função do melhor uso do idioma português.

         Desde novembro de 1992, portanto, Araçatuba inclui-se entre as cidades que valorizam o desenvolvimento humano, a despeito do materialismo consumista do século 20.

         O professor Célio é natural de Campinas, 20 de maio de 1932, filho de João e Angelina Pinheiro. Sr. João Pinheiro, mecânico de locomotiva na Alta Mojiana e Dona Angelina, italiana, mãe de oito filhos. Célio Pinheiro fez seus primeiros estudos na Congregação dos Missionários do Sagrado Coração e terminou o ensino médio no Colégio Estadual Culto à Ciência. Bacharelou-se em Letras Anglo-Germânicas na PUC de Campinas. Em 1957 transferiu-se para Lençóis Paulistas, onde conheceu e se casou com Leonor Carani, com quem educou dois filhos: Luciana e Marcelo Carani Pinheiro.

         Célio veio para Araçatuba ¨C onde já residiam os pais e tios de Leonor ¨C em 1980. Lecionou durante quarenta anos (Latim, Literaturas Brasileira, Portuguesa e Inglesa, Línguas Portuguesa e Inglesa), foi presidente AAL até 1996 e publicou obras como ¡°Introdução à Literatura Portuguesa¡± e ¡°História de Araçatuba¡± ¨C esta em parceria com a cronista social Odette Costa.

         Para o professor Célio, ¡°uma literatura ideal seria clássica, que usasse todos os recursos já aperfeiçoados, sem idealismos, que apenas expusesse o íntimo do ser humano¡±. As palavras guardam os fatos que transformam o homem.


Nos Trilhos do Centenário - Passageiros de Araçatuba - Editora Folha da Região - 2009.


Microbiografia de Célio Pinheiro
 

         O Professor Célio Pinheiro graduou-se na Faculdade de Letras Anglo-Germânicas na PUC de Campinas e se especializou em Letras na UNESP de Assis. Escreveu "Sondagens em Literatura Portuguesa", coordenou e escreveu para o livro "Oitenta anos de Os Sertões de Euclides da Cunha" e participou da "Enciclopédia de Estudos Euclidianos", de Adelino Brandão, publicados em 1982. Na condição de presidente da Academia Araçatubense de Letras, publicou, em 1995, o livro "Araçalinda", uma coletânea dos contos vencedores do Concurso Nacional de Contos "Cidade de Araçatuba".



DONA ADALBERTA

Capacidade e disposição


 

         O magistério é uma atividade que depende de vários recursos além da boa formação do professor e do bom ambiente escolar. Quem está à frente dos alunos é um ser humano, que na maioria das vezes têm filhos-alunos. E quem está à frente do professor são também humanos, que na maioria das vezes precisam bem mais que somente informações. Os alunos, em regra, precisam de professores que estejam ao lado deles, esforçando-se juntos contra a ignorância, visando os mesmos objetivos. Não é só o estudante que precisa aprender a ler; o educador também precisa de que o estudante aprenda a escrever. O fracasso do aluno é o fracasso do professor.

         Há casos impossíveis? Sim. Para os médicos, também. Se o paciente não resistiu, o médico também não venceu o mal. Mas é muito importante para o moribundo e para a família do paciente que o médico tenha feito tudo que devia e podia como se tentasse salvar a própria vida. Assim é com o aluno “sem jeito”. Há professores que não desistem. Não desprezam, não abandonam, não pedem a sua expulsão. Do mesmo modo como o pior mal valoriza mais quem perdoa; o pior aluno engrandece o trabalho do professor que consegue com ele algum sucesso.

         Dona Adalberta tem uma postura clássica diante dos alunos. Vê neles apenas o que têm de bom: humanidade, talento e disposição. As limitações e deficiências, isso não é problema deles, é dela. A professora assume sua responsabilidade de levá-los a sanar suas deficiências e superar seus limites. A Dona Adalberta, por isso, é sempre muito simpática, agradável, sorridente, disposta e normalmente contamina seus alunos com sua boa vontade de aprender e ensinar. “O conhecimento é uma janela para o mundo”.

         Esses ingredientes só facilitam o que não é fácil: zelar pelo bom uso e aperfeiçoamento da língua portuguesa do Brasil. A comunicação é o seu interesse. Evoluímos, crescemos com os erros e acertos nossos e de outros. Saber narrar suas próprias histórias e ler e compreender histórias alheias é preciso. E a Dona Adalberta não esconde suas riquíssimas experiências. Pelo amor que devota ao ser humano. Pela opção de qualificar o idioma e as pessoas que o utilizam. Pelo prazer de dizer a outros o quanto a vida pode ser tão melhor. “A Educação humaniza”.

         Nascida em Tanque D’Arca, Alagoas, filha de alagoano nascido em Quebrangulo, terra de Graciliano Ramos, conhece bem a diferença entre o saber e as “vidas secas”. Emociona-se com o cheiro de cana caindo das usinas do norte para o sudeste. Quando perdeu o seu filho Alcides e as irmãs do colégio lhe disseram que podia ficar em casa quanto tempo quisesse, em duas semanas voltou para a escola. A solidariedade e o pesar dos alunos e dos colegas a fizeram ver (como se estivesse diante de um espelho) seu querer bem a todos. “A sala de aula é o meu lugar”. Nela estão seus alunos convivendo com José Lins do Rego e Raquel de Queirós reinaugurando a vida em todos os dias.

 

Estação Sala de Aula - Passageiros de Araçatuba - Editora Folha da Região - 2009.

 

Microbiografia da Dona Adalberta
 

         Adalberta de Holanda Cavalcante Fortes Martins nasceu em Tanque D’Arca, Alagoas, em 1942. Com seis anos, a família a trouxe para Presidente Prudente, depois a levou para Guararapes. Nessa cidade, estudou na Escola Normal Livre. Começou a lecionar em 1962. Morando em Palmeira D’Oeste, fez o curso de Letras em Jales. Veio para Araçatuba, em busca de uma boa formação escolar para os filhos, em 1980. Aqui, trabalhou no Colégio Nossa Senhora Aparecida, Objetivo, São Judas, Unicolégio e Vitor Antônio Trindade (Industrial). Trabalhou na Rede Estadual de Ensino até 1988.



FABRICIANO JUNCAL

 

Narrador personagem de Araçatuba


 

         O Delegado de Polícia e Juiz de Paz Fabriciano Juncal, homem de confiança de Getúlio Vargas e prefeito de Araçatuba, amigo de Ulisses Guimarães e anfitrião de Juscelino Kubitschek, proprietário do Bar Carioca – o rei do puchero, casado com Noêmia Vasconcelos Barros, pai de Nancy, Geraldo, Juracy e Paulo, publicou em 1974 “A Verdadeira História de Araçatuba”: o primeiro livro em que se encontram personagens e fatos que fizeram existir nossa cidade.

         O livro, que foi organizado e revisado pela professora Cidinha Baracat, impresso pela Tilibra S/A, de Bauru, e publicado com recursos do orçamento municipal, podia ter recebido o título, talvez mais apropriado, “A primeira versão da história de Araçatuba”, mas, como havia inúmeras controvérsias sobre vários acontecimentos e datas, o livro foi escrito menos como uma crônica e mais como resposta a muitas dúvidas.

         A questão mais polêmica é a data de fundação de Araçatuba. Fabriciano Juncal afirma em seu livro que, em 1908, o Presidente da República Afonso Pena inaugurou o primeiro trecho da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, trecho que se estendia de Bauru a Cafelândia e, “simbolicamente”, inaugurou o segundo trecho, que ia até Córrego Azul. Por essa razão, segundo o autor, “todas as estações, de Cafelândia a Córrego Azul, [inclusive Araçatuba, obviamente] datam de 2 de dezembro de 1908”. O hispano-brasileiro Fabriciano Juncal nos deixou escrito que a inauguração da estação ferroviária de Araçatuba aconteceu em 1913.

         Um dos personagens notáveis nessa história é o engenheiro Cristiano Olsen. Está no livro de Fabriciano Juncal que o engenheiro, quando fazia a demarcação das terras da Fazenda Baguaçu, foi flechado pelos índios caingangues. O escritor afirma ainda que os empreiteiros contrataram milhares de operários para lutar contra os índios, contudo muitos dos contratados tombaram vitimados pela malária ou pelos caingangues, outros foram corroídos pela úlcera de Bauru.

         Quando dois povos se encontram, na verdade são duas culturas que se conflitam. Do mesmo modo como dois mapas de lugares distintos não se encaixam um noutro, também duas ideias de mundo não se ajeitam pacificamente. Os caingangues, com todo o direito natural de um ser locomotivo, defendiam o seu habitat; e os desbravadores, com todo o direito natural de expandir, controlar e aperfeiçoar, não se deixavam vencer pelas dificuldades. Há muito sangue vazado no parto desta cidade.

         Na fundação da Academia Araçatubense de Letras, na condição de membro-fundador, devia escolher um patrono e, por respeito, gratidão, reconhecimento, pioneirismo e também por ser um escritor de Araçatuba, escolhi-o. Fabriciano Juncal é o patrono da cadeira número onze da AAL.

         Um espanhol que nos deixou quatro filhos, doze netos, contribuindo historicamente com a miscigenação do povo brasileiro. Deixou-nos inclusive Margarida e Geraldo Juncal, que muy me habían recibido una entrevista bien. Obrigado!


Nos Trilhos do Centenário - Passageiros de Araçatuba - Editora Folha da Região - 2009.

 

Microbiografia de Fabriciano Juncal
 

         Fabriciano Juncal nasceu no dia 3 de fevereiro de 1898, filho de Angelina Juncal e Don Mariano Carrasco Ilhama, na cidade de Verin, província de Vigo, na Espanha. Trouxeram-no para o Brasil – Rio de Janeiro – aos 12 anos. Iniciou-se como office boy da Chemin de Fer, empresa que construiu a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Em 1914, transferiu-se para Bauru e, em 1918, para Araçatuba. Foi significativo na Revolução Constitucionalista de 1932, persistiu na instalação da Caixa Econômica Federal e colaborou administrativamente para que nossa cidade se tornasse um centro regional.



FAUSTINA

                                
Travessia


        

         O magistério sempre contou com mulheres ousadas e incansáveis que souberam driblar circunstâncias desfavoráveis e superar limites estruturais e técnicos para tornar a História de seu tempo menos rasa.

         Politizada por encadeamento genético – seu pai, de quem sentia muito orgulho, era comunista numa época em que, no Brasil, essa declaração podia custar a vida – Faustina Amorim apreciava com a benevolência infantil o quadro de Luís Carlos Prestes, ídolo político de seu pai, que era exposto na sala de sua casa. Sabia que era no dia do aniversário daquele homem que poria seu casaquinho logo pela manhã e acompanharia o pai e seus rojões a vários pontos da cidade, instigando os militares a um jogo de pega-pega.

         Também sabia que o anúncio da visita desses homens fardados fazia sua mãe e seus irmãos saírem pela casa em alvoroço (discreto) a recolher fotos, livros, jornais e objetos que podiam denunciar a ideologia política do pai. Todo esse transtorno era sofrido pela família enquanto o pai, ansiando por uma sociedade mais justa, “politizava” a todos com quem se encontrava nas ruas, retardando seu retorno a casa, o que o safou, muitas vezes, de ser preso.

         São referências como essas e leituras de autores como Maria Tereza Nidelcoff que levaram a professora Faustina, em todo seu trajeto profissional, voltar-se não só às preocupações pertinentes a uma educadora, mas também às ocupações sociais.

         Em 1980, quando lecionava na escola estadual Joaquim Dibo, Faustina conheceu o aluno Círio, menino mirrado de pele clara, o que permitia o registro de maus tratos e a identificação do desconcerto nas primeiras olhadas da professora atenta. Soube um pouco mais de sua história, de suas carências. Consternada, ofereceu imediatamente atenção – o item de que o menino mais precisava.

         O aluno aceitou a aproximação e tanta foi sua confiança que passou a ser costumeiro, depois das surras, “invadir” o quintal da professora para se esconder ou ser socorrido. Embaixo da mesa da varanda do fundo da casa da Dona Faustina. O número de vezes encontrado ali pela manhã permitiu o estabelecimento de uma rotina: oferecer café; puxar conversa; saber dos detalhes do acontecido; cuidar de frequentes feridas; conversar com a mãe para que amenizasse a surra quando conseguisse “pegá-lo”.

         O caso acima ilustra como a mãe, avó, professora, supervisora de ensino, advogada, amiga, a sempre educadora lida com os fatos que lhe dizem respeito, diretamente ou não. Superando decepções; enfrentando a ameaça de morte de uma hepatite C; rompendo protocolos e minimizando a burocracia; Faustina Amorim enobrece o cotidiano.

         De vida e de sentimentos intensos, a professora de História entende que todo sofrimento é travessia para a depuração de si mesma. Sobre as tristezas, é categórica: “Eu não aceito ser triste; sempre vejo o lado bom de todas as tristezas que tive. São elas que buliram a minha felicidade”.

Estação Sala de Aula - Passageiros de Araçatuba - Editora Folha da Região - 2009.


 

Microbiografia da Professora Faustina
 

         Faustina Amorim nasceu em Andradina, em 1941. Fez o Curso Normal (1962) e Pedagogia (1971) na Faculdade Rui Barbosa. Em 1978 veio para Araçatuba. Concluiu o curso de Licenciatura em História na Faculdade Auxilium de Jales em 1980. Lecionou da Educação Infantil ao Ensino Médio (nas redes pública e privada) e também no Ensino Superior, sendo professora e coordenadora do curso de pedagogia da UNIESP em Birigui (2001-2007). Foi assistente de direção escolar (1982-1988) e aposentou-se como Supervisora de Ensino (1998). É mãe de três filhos e avó de cinco netos.





QUINZÉ

                Nasceu professor

 


        
No último ano da Segunda Guerra, quando o menino Quinzé estava no quarto ano primário, o Estadão publicava mapas para demonstrar o avanço das tropas aliadas contra a Alemanha. Na casa da avó paterna, de mapa em mapa nasceu o prazer com a geografia.

         Formou-se com 19 anos no Colégio Estadual e Escola Normal Manuel Bento da Cruz e começou a lecionar em 1955 no Grupo Escolar da Água Limpa. Trabalhou com a Ninete de Melo Nicollette quando a diretora era a Maria José Bedran.

         Quem se lembra do ônibus do Possari, que saía da estação rodoviária da rua XV de Novembro para Vicentinópolis, para as Macaúbas Velhas, para a Fazenda Garcia? Lá, o professor Quinzé, ainda nos anos 50, alimentava-se em gamela e com colher de pau. Não raramente uma vaca leiteira resolvia se coçar na parede da sala de aula e batia insistentemente com chifre na janela de madeira, de tramela. À noite, as aulas aconteciam graças à luz de lampião a querosene ou velas.

         Para trabalhar em Gastão Vidigal, saía de casa às dezesseis horas e chegava já era uma da manhã. Viajava setenta quilômetros em estrada de terra e atravessava de balsa o Rio Tietê. Em Gastão, lecionou em 1971 e 72. Os melhores alunos estão nos anos 70, quando as crianças sonhavam mais e viam nos professores aqueles que podiam ajudá-los a alcançar seus objetivos. Havia, consequentemente, mais respeito e disciplina.

         Joaquim José Cardia é um professor exemplar. Daqueles que qualquer diretor ou secretário de escola gostaria de ter. Cumpre rigorosamente o que se exige burocrática e pedagogicamente. Reclama, sim, mas faz. Faz porque aprendeu, nesses cinquenta e quatro anos de magistério, que as coisas ¨C de uma forma ou de outra ¨C têm de acontecer. O tempo não espera o fim das nossas discussões para sequenciar os fatos. Por isso cumpre religiosamente horários e prazos.

         Reclama, às vezes, porque é uma pessoa especial, sui generis, dono de uma personalidade complexa e, só por isso, existencialmente rica. Não seria normal se um homem como o professor Quinzé, com toda a sua experiência, dentro e fora das salas de aula, aceitasse tudo silenciosamente. Questiona porque é crítico, tem sugestões a fazer. Ex-alunos como Ricardo Portolani Andrade, Mauro Sérgio Benez, Carlos Roberto Albanezi Ramos podem confirmar o rigor e a dedicação do professor Quinzé. E seus colegas de trabalho sabem o quanto Quinzé é professor, porque sempre, em qualquer circunstância, agradável ou adversa, manteve-se com o professorado.

         Para viver professor, estudou em Laranjal Paulista; Araçatuba ¨C Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Instituição Toledo de Ensino; Bauru ¨C Faculdade Sagrado Coração de Jesus; Lins ¨C Faculdade Auxilium; Andradina ¨C Faculdades Integradas Rui Barbosa; e nas Faculdades Integradas de Adamantina.

         Odeio relógio de pulso, fotografia e guarda-chuva, mas gosto dos meus alunos. De ver em suas íris o mundo que lhes desenhei.

 

Estação Sala de Aula - Passageiros de Araçatuba - Editora Folha da Região - 2009. 



Microbiografia do Professor Quinzé

         Joaquim José Cardia nasceu em Laranjal Paulista em 1935. Mudou-se para Araçatuba com 16 anos. Em 1954, formou-se no Colégio Estadual e Escola Normal Manuel Bento da Cruz e começou a lecionar no ano seguinte, em 1955, no Grupo Escolar da Água Limpa. Formou-se ainda em Geografia, Estudos Sociais, Pedagogia e História. Especializou-se em Geografia Física e Humana em 1975 na Faculdade Auxilium de Filosofia, Ciências e Letras de Lins. Trabalhou para o Governo do Estado entre 1955 e 1998. Trabalha na rede particular de ensino desde 1984. Em fevereiro de 2009 completou 54 anos de carreira.
 


 

RICARDO DEPS

 


 

Meus alunos, meus parceiros


 

         Os professores deste século são diferentes dos de outras décadas porque as escolas são diferentes, porque os alunos são outros. As liberdades individuais e o ambiente competitivo tornaram os estudantes mais exigentes. Deixaram de somente aceitar as imposições dos professores tradicionais para reivindicar modelos de aulas que satisfaçam suas ansiedades.

         O ensino-aprendizagem depende de uma parceria professor-aluno, de uma coautoria em que tanto o aluno aceite o conteúdo e a forma do professor e este, por sua vez, respeite a condição do aluno, com todas as suas limitações (do aluno), e se aproxime (o professor) do conhecimento e do comportamento esperado pelo estudante.

         Não, o professor não tem de se submeter aos caprichos do aluno, porque o estudante também não tem de se curvar às inflexibilidades do professor. A educação moderna espera que o educador deixe de esperar que o aluno o alcance (em seu nível de linguagem e conhecimento) e compreenda o nível e o modelo de conhecimento do aluno, e use uma linguagem adequada para que aconteça o ensino-aprendizagem. Parece-me menos difícil o professor compreender as dificuldades do aluno e se dedicar a saná-las do que o contrário.

         As escolas particulares, no quarto quarto do século passado, passaram a tratar o aluno como um consumidor e, consequentemente, passaram a ouvi-lo. Daí a necessidade de o professor compreender linguagens e modelos outros de conhecimento para não perder o cliente.

         Professores como Ricardo Cerbino Deps são excelentes resultados dessa transformação na educação escolar. Infelizmente ainda não são muitos os que se dedicaram à arte de ensinar: que tomaram para si as dificuldades do aluno e desenvolveram técnicas suficientes para conquistar e manter a atenção do aluno com o prazer da compreensão de um determinado fenômeno.

         Nas salas de aula, Ricardo Deps não só aperfeiçoa técnicas de ensino e gerência de aprendizagem como disponibiliza parte dessas técnicas a colegas de trabalho. Numa dessas ocasiões, eu o vi orientando um colega sobre como empunhar e calcar o giz à lousa. O colega calcava demais o giz, tanto que chegava a quebrá-lo, às vezes. Ouvi o professor Deps dizendo que isso gerava um mal estar nalguns alunos, principalmente naqueles que se incomodavam com o nervosismo ou a insegurança ou a ansiedade do professor. Que o giz devia ser empunhado ao meio e calcado à lousa com um cuidado tal que mantivesse o aluno concentrado no que se tinha a dizer ou refletir.

         Do mesmo modo que o andaime deixa a obra inacabada, um árbitro não deve protagonizar uma partida de futebol e o giz não pode chamar a atenção para si numa aula. Aliás, que de toda a estrutura escolar apareça e permaneça apenas o conhecimento. Como diz Olavo Bilac gA um poetah: gNão se mostre na fábrica o suplício do mestre. E, natural, o efeito agrade, sem lembrar os andaimes do edifício.h.

Estação Sala de Aula - Passageiros de Araçatuba - Editora Folha da Região - 2009.


 

Microbiografia do Professor Deps

 

         Ricardo Cerbino Deps nasceu em Niterói-RJ, em 1955. Com 7 anos mudou-se para Piacatu e com 13 para Bilac. Estudou o segundo grau no Colégio Dom Bosco, em Lins. Foi universitário no campus da USP de Ribeirão Preto entre 1971 e 1978, na Faculdade de Farmácia e Bioquímica, onde se fez mestre em Química Orgânica. A licenciatura, obteve na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Jales. Começou a lecionar no ensino médio e pré-vestibular em Ribeirão Preto em 1977. No ano seguinte, mudou-se para Araçatuba. Aqui trabalhou inicialmente no Colégio Objetivo e ainda leciona no THATHI-COC.

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