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MISCIGENAÇÃO LINGUÍSTICA

    
O Brasil é reconhecidamente um país cuja população é das mais miscigenadas do planeta. Sua multietnicidade e seu comportamento pluricultural revelam um povo envolvido num processo intenso de combinações genéticas e culturais. Guimarães Rosa, o escritor dos sertões das Minas Gerais, disse e redisse que ¡°a riqueza está nas diferenças¡±. Já o antropólogo Darcy Ribeiro, em seu livro ¡°O povo brasileiro¡±, observou que, a despeito das diferenças, ¡°os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia¡±.
     Oswald de Andrade, o mais eufórico dos modernistas, publicou seu ¡°Manifesto Antropófago¡± expondo seu nacionalismo crítico e devorador e advogando a tese de que o fim do Brasil é a concepção de um povo resultado da mistura genética e cultural de todos os outros: ¡°Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.¡±; ¡°Só me interessa o que não é meu.¡±.
     Oswald vociferou que ainda não somos brasileiros, mas um povo em formação. Os brasileiros surgirão depois de cozida a sopa genética e cultural que se faz com todos os ingredientes étnicos da Terra.
     Um povo destinado a ser simultaneamente a si mesmo e todos os outros não podia recusar uma língua ¨C a portuguesa ¨C que explicitava a mesma origem latino-ibérica do seu usuário na América e se prestava a todas as influências.
     Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, quando escreveu uma carta ao Congresso Nacional, no início do século XX, propondo a decretação do tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro, argumentou em favor de uma propriedade fisiológica da língua indígena aos povos deste lugar. Disse que a língua tupi-guarani era a única capaz de ¡°adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos¡±.
     Lima Barreto, entretanto, era um pré-modernista, um pré-oswaldiano, não havia percebido que só uma língua atualizada pela globalização marítima renascentista e disposta morfológica e sintaticamente a constantes transformações podia ser a língua natural do povo brasileiro. Só uma língua com diversos matizes já em desenvolvimento, flexibilizada em séculos de civilização europeia, podia oferecer respostas satisfatórias a um povo tão dinâmico, ainda em busca do seu destino. Estivesse vivo, hoje, Lima Barreto certamente enxergaria a pertinência da língua portuguesa aos brasileiros.
     A língua portuguesa do Brasil é tão miscigenada quanto o povo que a usa. Quando, de acordo com a profecia oswaldiana, o povo brasileiro estiver pronto, também estará pronta a nossa língua. Da mistura e da conformação de todas as outras, pautada na língua portuguesa, teremos a língua nacional brasileira.
 
     As autoridades legislativas brasileiras, porém, dedicaram-se a unificar a língua portuguesa dos países que a usam. Atendendo a uma solicitação dos representantes do Brasil na CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), o Congresso brasileiro aprovou em 2001 o Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa protocolado em Lisboa em 1990. Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe já publicaram a última assinatura para a efetivação das alterações ortográficas. Segundo a CPLP, as mudanças começaram a ser incorporadas gradualmente nesses três países a partir de 2008.
     Trata-se de uma medida historicamente míope e inconveniente. Desde o ¡°Manifesto Pau-Brasil¡±, do Oswald de Andrade, de 1925, optamos pela língua portuguesa do Brasil, pela língua portuguesa que se reforma no cotidiano brasileiro conformando-se a uma cultura de miscigenação e formadora de uma identidade nacional: ¡°A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.¡±.
     Manuel Bandeira, outro modernista agressivamente antiparnasiano, em sua Evocação do Recife, escreveu: ¡°A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / Ao passo que nós / O que fazemos / É macaquear / A sintaxe lusíada¡±. E em seu texto Poética, desabafou: ¡°Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo¡±. Mário de Andrade, o ¡°papa¡± dos modernistas, em seu Prefácio Interessantíssimo, disse que ¡°A língua brasileira é das mais ricas e sonoras.¡±.
     Não somos portugueses nem o pretendemos ser. Somos brasileiros e nos queremos a cada dia mais. Diferentes, únicos, próprios. Não queremos nos condenar a ser definitivamente um amontoado étnico ou um aglomerado de imigrantes ou, ainda, um bando de forasteiros interessados em fazer fortuna e depois desaparecer deste lugar. Interessa-nos o reconhecimento de nós próprios. Como povo. Como nação. Com mais características comuns que incomuns. Voltados para os mesmos objetivos sociais. Nas conclusões do modernista Mário de Andrade, éramos imigrantes, somos macunaímas e seremos brasileiros.
     Os defensores da reforma ortográfica querem melhorar o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa, reduzir os custos de produção e tradução de livros, facilitar a difusão bibliográfica e de novas tecnologias, aproximar política e culturalmente as nações em que se fala o português. Muito disso é possível mesmo com línguas diferenciadas e o que não é possível, como a redução de custos na produção e tradução de livros, é o preço que se paga pela construção de uma nação. Não é justo? Não vale a pena? Ou sacrifica-se a construção de um povo para não onerar as editoras? Não temos direito a uma identidade nacional? A reforma ortográfica é uma atitude contra a formação da cultura brasileira.
     A CPLP devia se ocupar com uma aproximação política (afinando interesses econômicos, sociais, ecológicos) dos países de língua portuguesa, respeitando e estimulando suas diferenças culturais para o enriquecimento humano da comunidade que representa. Precisamos de uma reforma que nos distancie, que nos livre do tu e do vós, por exemplo. Quem precisa de mesóclise? Falamos em lugar de você. E daí? Se aceitamos o reducionismo de Vossa Mercê para você, por que não o mesmo fenômeno de você para ?
     Com todas as gratidões, mas não precisamos de uma reforma que isole o nosso jeito de existir da língua que usamos. Estamos construindo cotidianamente uma língua brasileira ¨C nas ruas, nos estádios, sambódromos, microcomputadores, teatros ¨C enquanto nos definimos fisiologicamente e delineamos o modo próprio de viver no lado atlântico da América abaixo do Equador.
     Para os portugueses, a reforma ortográfica é até interessante: mantém a identidade nacional portuguesa e o caráter colonizador daquele povo. Eles, porém, ainda não assinaram conclusivamente o acordo.



LÍNGUA NACIONAL BRASILEIRA

Regras de Acentuação

    Na Língua Brasileira, toda regra de acentuação deve ser facultativa, uma indicação fonética, uma guia de leitura. Por exemplo: conheci um garoto que também é chamado pelo apelido Tego; mas não é ¡°Tégo¡±, é ¡°Têgo¡±. Não posso colocar o acento porque a palavra é paroxítona terminada com -o, portanto, não posso escrever corretamente o apelido do garoto. Ele usa o apelido ¡°Têgo¡±, mas as pessoas leem ¡°Tégo¡±. Certo estava e está Guimarães Rosa, que usava as regras gramaticais apenas convenientemente.
    Os sinais de acentuação devem estar disponíveis como recursos para uma boa leitura. Quem escreve é quem decide se a palavra precisa ou não de acento. O nome ¡°Natália¡±, por exemplo, não precisa de acento porque normalmente ninguém lê ¡°Natalía¡±; mas o nome ¡°Dário¡± precisa porque também existe o nome ¡°Darío¡±.

Pronomes Pessoais

Os pronomes pessoais do caso reto devem substituir o tu e o vós por você e vocês:

Eu
Você
Ele
Nós
Vocês
Eles

Eu quero
Você quer
Ele quer
Nós queremos
Vocês querem
Eles querem

Sem tu, mas preservamos o te para a segunda pessoa, para o interlocutor.

Eu ¨C me, mim, comigo
Você ¨C você, te
Ele ¨C se, si, consigo, o, a, lhe
Nós ¨C nos, conosco
Vocês ¨C vocês
Eles ¨C se, si, consigo, os, as, lhes

Sem mesóclise.
A próclise e a ênclise, como o escritor julgar melhor.
Que prevaleçam os critérios estéticos-fonéticos do escritor.

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